O crescimento das apostas online no Brasil trouxe junto uma preocupação que ultrapassa o futebol e o entretenimento. Endividamento, conflitos familiares, ansiedade, perda de controle e depressão estão entre os problemas associados ao uso compulsivo das plataformas de apostas, conhecidas popularmente como bets.
Dados recentes mostram a dimensão financeira do fenômeno. Estudo divulgado em setembro pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP estimou que as famílias brasileiras tiveram uma transferência líquida de aproximadamente R$ 62,5 bilhões para as empresas de apostas em 2025. Os pesquisadores apontam ainda que parte desse dinheiro pode ter sido financiada por endividamento das famílias.
Na área da saúde, o sinal de alerta também aumentou. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. O transtorno do jogo pode estar associado a ansiedade, depressão, alterações no sono e no humor, isolamento, conflitos familiares e graves dificuldades financeiras.
O próprio Ministério da Saúde passou a tratar o problema como uma questão de saúde pública. Dados apresentados pelo governo indicam que, em levantamento referente a 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam realizado apostas no período analisado e cerca de 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
Proibir as bets resolveria o problema?
O debate ganhou um novo capítulo na última sexta-feira, 25 de setembro. O Governo Federal publicou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no território brasileiro, incluindo apostas esportivas e jogos online. A MP tem força de lei desde sua publicação e ainda tramita no Congresso Nacional.
A retirada das plataformas legais pode reduzir a exposição da população à publicidade, aos bônus, às notificações constantes e à facilidade de apostar a qualquer hora pelo celular. Por outro lado, especialistas alertam que somente a proibição pode não eliminar o problema, já que parte dos apostadores pode migrar para sites clandestinos e plataformas instaladas no exterior.
Por isso, o desafio não termina simplesmente com a retirada das bets. Fiscalização contra plataformas ilegais, bloqueio de meios de pagamento, tratamento para pessoas que desenvolveram dependência, orientação às famílias e ações de prevenção continuam sendo apontados como necessários para enfrentar os efeitos das apostas.
A discussão deixa uma pergunta importante para a sociedade: proibir as bets será suficiente para diminuir o endividamento e os problemas de saúde mental ou o Brasil também precisará ampliar fortemente a prevenção, o tratamento e a fiscalização do mercado clandestino?
Nos próximos meses, os efeitos da proibição poderão oferecer respostas mais concretas sobre uma questão que já deixou de ser apenas econômica e passou a envolver diretamente a saúde e a vida de milhares de famílias brasileiras.
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