Pelo menos 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo contra mulheres estão ativos no Youtube, mostra um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ). Juntos eles somam mais de 23 milhões de inscritos e têm cerca de 130 mil vídeos publicados.
Os dados divulgados nesta segunda-feira (9), logo após o Dia Internacional da Mulher, atualizam um levantamento feito em 2024, quando 137 canais foram mapeados. De lá para cá, apenas 14 canais foram removidos, por iniciativa dos donos ou da plataforma. Além disso, 20 canais mudaram de nome, mas alguns deles continuam produzindo conteúdo misógino mesmo sob a nova alcunha.
O NetLab também destaca que além de continuarem em atividade, esses espaços ganharam novos seguidores. A quantidade de pessoas inscritas nos 123 canais que restaram aumentou 18,5%, desde abril de 2024, com o incremento de mais de 3,6 milhões de novas assinaturas.
Os vídeos também rendem dinheiro para os criadores. Considerando a primeira amostra, coletada em 2024, cerca de 80% tinham alguma estratégia de monetização, seja as formas oferecidas pela plataforma, como anúncios e programa de membros, ou alternativas, como vendas de e-book ou transferências via pix.
Para a pesquisadora do Net Lab, Luciane Belín, isso mostra como a misoginia se tornou um nicho de negócio.
"Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres," explicou.
Luciane explica que o grupo criou um protocolo para identificar diversos tipos de discurso misógino.
"Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que não está só concentrado no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimento de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas", complementa.
O relatório mostra que a popularização desses vídeos é um fenômeno recente. Apesar do vídeo mais antigo ter sido postado em 2021, 88% deles foram publicados a partir de 2021, e pouco mais da metade (52%) entraram na plataforma entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Já de abril para cá, cerca de 25 mil novos vídeos foram postados.
Para definir quais canais disseminam conteúdo misógino, o estudo considerou apenas aquelas que continham pelo menos três vídeos com ao menos uma manifestação de ódio às mulheres. O tema mais recorrente, no qual 42% dos vídeos foram enquadrados, foi "Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina.”
Nessa categoria, foram incluídos vídeos "que conclamam os homens a não se deixarem dominar pelas mulheres", ao mesmo tempo em que estimulam que elas sejam tratadas com desprezo. Os conteúdo também disseminam a ideia de que as iniciativas por igualdade de gênero são estratégias de dominação social contra os homens.
"A gente encontrou conteúdos muito explícitos. Quando a gente olha para as palavras, por exemplo, que são usadas para descrever as mulheres, a gente identifica termos como "burra" e "vagabunda" que são muito usados. Isso foi, de certa forma, até uma surpresa, porque a gente pensava que a plataforma derrubava esse tipo de conteúdo", diz Luciane.
Mas a pesquisadora explica que alguns influenciadores também utilizam estratégias para dissimular seu conteúdo, como o uso de abreviações e apelidos. A palavra "mulher", por exemplo, é substituída por "colher", e mães solo, um dos grupos mais atacados são chamadas de "msol".
"Às vezes, a opinião não é expressada de forma verbal, mas quando você olha para as imagens que ilustram os vídeos, elas mostram a mulher ajoelhada aos pés do homem ou hipersexualizada com decotes imensos e etc, complementa.
Ela cobra mais responsabilização das plataformas: "A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet."
A Google, empresa responsável pela plataforma Youtube, foi procurada mas ainda não respondeu à reportagem.
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