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Senhorinha da Bíblia

Imagino uma daquelas senhorinhas de Bíblia na mão, hoje na Praça dos Três Poderes, a anunciar: “O Todo-Poderoso enviou Vorcaro para separar o joio do trigo“

22/03/2026 19h43
Por: Redação Fonte: otempo
Senhorinha da Bíblia

Com a mente passeando entre os fatos, minha imaginação recria uma daquelas senhorinhas de Bíblia na mão, hoje na Praça dos Três Poderes, a anunciar: “O Todo-Poderoso enviou Vorcaro para separar o joio do trigo; a hora chegou!” Quando vi o discurso de Vorcaro, que está nas redes, em 15 de maio de 2024, em evento do “Valor Econômico” em Nova York, percebi o modo master da conquista. Ao final, a apresentadora do evento qualificou a fala de “palavras inspiradoras”; outros foram além disso, como o escritório da família Moraes, que naquele dia já estava no terceiro mês de recebimento de R$ 3,6 milhões.

No Brasil, percebemos que somos ingênuos e espertos. Quando somos ingênuos, elogiamos um espertalhão e ele vira ícone de uma atividade – agora é banco. Na minha geração, lembro-me de muitos, que geraram elogios, notícias, coluna social – eram geniais, mas depois veio o escândalo, sempre de bilhões. Aí nos descobrimos ingênuos, crédulos. Os espertos patrocinam, promovem, compram gente e encontram os que agem como nas piadas de recém-chegados à cidade, que compram bilhete premiado e bonde. Há o ingênuo estimulado a acreditar que é esperto, que vai ganhar muito, com negócios em bancos tipo Master, e vira bobo ante o espertalhão. Temos agora mais um registro na nossa história de vigarices. Com o agravante de que gera efeitos num ano eleitoral. 

Parece um vaticínio da senhorinha da Bíblia: os espertos se enredaram em seus próprios negócios com o espertalhão. E vice-versa. E, como a hora chegou, primeiro é o espertalhão que abre o caminho da prisão. Esmurrando a parede, amaldiçoa os nomes dos espertos porque se sente um bobo que comprou serviços que não lhe foram entregues. E desmascara, em gritos ouvidos por carcereiros, os nomes dos que superaram, em esperteza, o espertalhão. “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo o que é condenável, torna-se manifesto pela luz. É por isso que se diz: desperta, tu que dormes…” Não é exortação da minha senhorinha da Bíblia, e sim a real pregação de São Paulo aos Efésios – ou aos brasileiros – na epístola da segunda leitura na liturgia desse domingo.

Virá a luz pela boca de Vorcaro? Ele trocou de advogado. Contratou um que já fez a delação premiada de Léo Pinheiro, o empreiteiro do Triplex de Guarujá, que originou uma das condenações de Lula – entre as anuladas pelo Supremo. Se há o risco de Vorcaro ser sicariado, como imagina muita gente, os telefones dele são seguro de vida, porque darão à luz os nomes dos prováveis suspeitos. Enquanto Vorcaro amaldiçoava nomes na prisão, chegava ao Brasil o eco das palavras do papa no sábado, quando abriu o ano do Judiciário vaticano: para ter credibilidade, a Justiça tem que ter a imparcialidade do juiz, o efetivo direito de defesa e a razoabilidade do prazo do processo. No Brasil, falta tudo isso num inquérito que começou ilegal e já dura sete bíblicos anos.

Alexandre Garcia
Sobre Alexandre Garcia
Alexandre Eggers Garcia é um jornalista, apresentador e comentarista político brasileiro, nascido em 11 de novembro de 1940, na cidade de Cachoeira do Sul. Com uma longa trajetória na imprensa nacional, tornou-se um dos nomes mais conhecidos do jornalismo político no Brasil. Formado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, iniciou sua carreira ainda jovem no rádio, inspirado pelo pai, que também era radialista. Ao longo das décadas seguintes, construiu uma carreira marcada por atuação em importantes veículos de comunicação. Garcia trabalhou em veículos como o Jornal do Brasil e a TV Manchete, mas ganhou projeção nacional principalmente durante mais de 30 anos na Rede Globo. Na emissora, foi diretor de jornalismo em Brasília e, posteriormente, comentarista político em programas como o Bom Dia Brasil, onde analisava os principais acontecimentos da política brasileira até 2018. Além do trabalho na televisão, Alexandre Garcia também atuou como porta-voz do presidente João Figueiredo durante o final do regime militar. Depois de deixar a Globo, continuou atuando como colunista, comentarista em rádios e produtor de conteúdos de análise política em diferentes plataformas de comunicação. Com décadas de experiência na cobertura política em Brasília, Alexandre Garcia consolidou-se como um dos mais conhecidos comentaristas do país, mantendo presença em jornais, rádios e veículos digitais com análises sobre política, economia e acontecimentos nacionais.
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