O Brasil registrou mais de 1,2 milhão de processos de violência doméstica ao longo de 2025. Apenas em janeiro de 2026, foram cerca de 99 mil novos casos e 947 feminicídios. Em Santa Catarina, os números também acendem um alerta — e, em Içara, essa realidade bate diariamente à porta da Comunidade Terapêutica ADEA.
Fundadora da instituição, Rosane relata que a violência contra a mulher está diretamente ligada ao perfil das acolhidas. “A mulher não consegue denunciar e voltar para casa. Se voltar, morre. Içara virou rota de fuga, mas faltam vagas de acolhimento protegido”, afirma.
A comunidade é a única do Sul catarinense voltada exclusivamente ao atendimento feminino para casos de dependência química. Segundo Rosane, cerca de 80% das mulheres atendidas também são vítimas de violência doméstica.
Embora pesquisas nacionais apontem que 66% das mulheres rompem com o agressor após episódios de violência, isso não significa segurança. Na prática, muitas ficam sem para onde ir.
“Aqui na comunidade, 8 em cada 10 acolhidas sofreram violência. O agressor pode ser ex-marido, pai, padrasto ou tio. Elas chegam após agressões, abusos, perdas. A droga não vem por lazer — vem para não sentir. É uma anestesia para o trauma”, explica Rosane.
Ela destaca ainda que o perfil das vítimas em Içara segue o padrão nacional: mulheres de baixa renda, muitas vezes vindas da periferia, com histórico de atendimento em órgãos como assistência social, saúde mental e polícia.
“Quando chegam aqui, muitas já perderam a guarda dos filhos, passaram pela rua ou enfrentaram tentativas de suicídio”, completa.
A rotina da comunidade também é marcada por tensão. Rosane relata episódios frequentes de ameaças por parte de agressores, inclusive durante a madrugada.
“Já tivemos homens no portão tentando levar as acolhidas à força. Recentemente, fui ameaçada por um deles. Nesses momentos, a gente precisa manter o equilíbrio para não expor ainda mais essas mulheres”, conta.
Segundo ela, a resposta vem na fé e na resiliência. “Meu caminho é buscar força para proteger sem gerar mais conflito. Estamos lidando com traumas profundos e com a luta pela sobriedade.”
Com cerca de 59 mil habitantes, Içara não possui casa-abrigo municipal para mulheres em situação de risco. Casos mais graves acabam sendo encaminhados para cidades vizinhas, como Criciúma, ou permanecem sem atendimento adequado.
“A medida protetiva é importante, mas não garante segurança. É um papel, não um escudo. A mulher precisa de um lugar seguro para recomeçar. Hoje, em Içara, esse espaço é a comunidade terapêutica”, afirma.
Atualmente, a ADEA acolhe cerca de 40 mulheres, a maioria com histórico de violência associado à dependência química. Muitas chegam apenas com o que vestem, documentos danificados e sob ameaça constante.
“O acolhimento é sigiloso. Se o agressor descobre onde ela está, o risco é real”, diz Rosane.
Para a fundadora, ainda há um estigma que precisa ser combatido. “Existe um preconceito de que a mulher usa droga por escolha. Na maioria das vezes, é sobrevivência emocional. É uma tentativa de suportar abusos, agressões e traumas”, explica.
Ela defende que o tratamento precisa ser integral. “Não adianta tratar apenas a dependência química sem enfrentar a violência. É enxugar gelo.”
Dados recentes mostram que o feminicídio continua sendo a forma mais extrema da violência de gênero, geralmente cometida por parceiros ou ex-companheiros.
“Nosso trabalho é evitar que essas mulheres virem estatística”, afirma.
Rosane aponta três medidas urgentes para enfrentar o problema em Içara:
“Violência doméstica não é questão privada, é crime. E julgar uma mulher sem entender sua história é condená-la duas vezes”, destaca.
Ao final, Rosane deixa uma mensagem às mulheres que enfrentam esse ciclo:
“Existe saída. Você não precisa escolher entre a violência e a rua. Há caminhos de recomeço. E para quem ouve ou presencia agressões, é fundamental denunciar. O silêncio também mata.”
Comunidade Terapêutica ADEA – Içara/SC
Acolhimento feminino para mulheres em situação de violência e dependência química
WhatsApp: (48) 99641-4079
Central de Atendimento à Mulher: 180
Emergência: 190
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