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Jornalismo ou campanha? Excesso de exposição política nas ruas e em portais provoca debate em SC

Publicações com tom excessivamente favorável a candidatos e a grande quantidade de propaganda eleitoral espalhada pelas cidades levantam questionamentos sobre os limites entre informação, publicidade e tentativa de convencimento do eleitor

28/08/2026 19h37
Por: Redação Fonte: Redação
Jornalismo ou campanha? Excesso de exposição política nas ruas e em portais provoca debate em SC

Com a campanha eleitoral de 2026 nas ruas, nas redes sociais e nos meios de comunicação, uma discussão começa a ganhar força em Santa Catarina: até onde vai a informação e onde começa a propaganda política?

O questionamento não envolve apenas bandeiras, materiais de campanha e publicações oficiais dos candidatos. Também alcança portais de notícias que, em determinadas situações, publicam conteúdos políticos com títulos, fotografias e textos tão elogiosos que podem deixar o leitor com a impressão de estar diante de uma peça de campanha disfarçada de notícia.

Informar sobre propostas, agendas, declarações, obras, projetos e atividades de candidatos é parte natural da cobertura jornalística. O problema surge quando desaparecem os questionamentos e o contraponto e sobra praticamente apenas a promoção da imagem de determinado político.

Em período eleitoral, essa diferença se torna ainda mais importante.

Vídeo de Toguro coloca excesso de propaganda no centro da discussão

O debate ganhou ainda mais repercussão nesta sexta-feira (28) depois que o influenciador digital e empresário Tiago Toguro, conhecido como Toguro, publicou um vídeo durante passagem por Florianópolis questionando a quantidade de materiais políticos espalhados pelas vias da Capital.

No vídeo, o influenciador chama atenção principalmente para os windbanners, estruturas verticais utilizadas para divulgar nomes e números de candidatos.

Toguro criticou a estratégia de marketing, o gasto envolvido e principalmente a poluição visual provocada pela quantidade de peças espalhadas pelos canteiros e vias públicas. Na avaliação apresentada por ele, simplesmente colocar nomes e números repetidamente pelas ruas não significa necessariamente convencer o eleitor.

A manifestação repercutiu também no Sul catarinense. Internautas citaram Criciúma e relataram que o mesmo cenário pode ser observado na cidade, inclusive na Avenida Centenário.

A repercussão mostra que existe uma discussão que vai além da legalidade: quanto de propaganda o eleitor realmente precisa receber para conhecer um candidato?

Candidato de Criciúma respondeu

Um dos materiais que aparecem no vídeo pertencia ao candidato a deputado federal Daniel Freitas, de Criciúma. Após a repercussão, ele publicou uma resposta explicando que o windbanner é uma das ferramentas utilizadas pelas campanhas diante das limitações existentes para determinadas formas de publicidade eleitoral.

Pelas regras eleitorais, bandeiras e outros meios móveis podem ser utilizados ao longo das vias públicas, desde que não prejudiquem a circulação de pessoas e veículos. A legislação considera móvel o material colocado a partir das 6h e retirado até as 22h.

Portanto, o debate levantado pelo vídeo não significa necessariamente que todo material mostrado seja irregular. A discussão apresentada é outra: o excesso funciona? É necessário? E qual é o impacto sobre a cidade e sobre o próprio eleitor?

E quando a propaganda entra na notícia?

Se nas ruas o eleitor consegue identificar facilmente que uma bandeira com nome e número é propaganda eleitoral, na internet essa separação pode ficar muito menos evidente.

É justamente aí que surge outro problema.

Há publicações em portais que apresentam candidatos quase exclusivamente por suas qualidades, realizações e declarações positivas. Em alguns casos, o conteúdo utiliza estrutura semelhante à reportagem jornalística, mas poderia facilmente ser confundido com material produzido por uma assessoria de campanha.

Um título excessivamente promocional, fotografias cuidadosamente escolhidas, ausência de questionamentos e sucessivas matérias favoráveis ao mesmo candidato podem fazer com que o leitor se pergunte:

“Estou lendo uma notícia ou uma propaganda eleitoral?”

Essa pergunta é legítima.

Não significa que um veículo de comunicação esteja proibido de publicar notícias positivas sobre políticos. Um bom trabalho também é notícia. Uma obra importante é notícia. Uma proposta relevante é notícia.

Mas jornalismo não pode perder sua principal característica: informar o cidadão para que ele forme a própria opinião.

Informação precisa estar separada da publicidade

O problema se torna ainda maior quando publicidade, conteúdo patrocinado ou material político não estão claramente identificados.

O leitor precisa saber quando está diante de uma reportagem produzida pela redação e quando está consumindo uma mensagem cujo objetivo é promover determinada candidatura.

A própria regulamentação eleitoral estabelece regras específicas para propaganda durante o período de campanha. A propaganda eleitoral está permitida desde 16 de agosto de 2026, inclusive na internet, observados os limites previstos pela legislação.

Isso torna a transparência ainda mais necessária.

O eleitor está cercado por propaganda

O episódio envolvendo Toguro ajuda a revelar um cenário maior.

De um lado estão ruas tomadas por bandeiras, números, fotografias e nomes de candidatos.

Do outro, redes sociais, vídeos patrocinados, impulsionamentos, mensagens e publicações políticas.

E, no meio de tudo isso, estão também os veículos de comunicação.

É justamente por possuir credibilidade que o jornalismo precisa ser ainda mais cuidadoso.

Quando um candidato faz propaganda, o eleitor sabe que aquela mensagem pretende conquistar seu voto.

Quando uma propaganda aparece com aparência de notícia, essa identificação se torna muito mais difícil.

Por isso, independentemente de partido, candidato ou ideologia, uma regra deveria valer para todos:

notícia deve ser notícia. Propaganda deve ser identificada como propaganda.

A democracia precisa da política, a política precisa apresentar seus candidatos e o eleitor precisa conhecer suas opções.

Mas o cidadão também precisa ter liberdade para formar sua própria opinião.

Porque existe uma diferença fundamental:

o jornalismo apresenta os fatos para que o eleitor decida. A propaganda apresenta argumentos para tentar convencê-lo.

Quando essa fronteira desaparece, quem perde é a informação — e, principalmente, o eleitor.

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